Foi um sonho realizado fazermos o Caminho de Santiago de Compostela (post AQUI) Optamos em fazer os 120 km exigidos para receber a Compostelana, o certificado do peregrino.

Mesmo assim, foi a melhor e mais transformadora viagem de nossas vidas. Escolhemos a data com cuidado já que final de maio e começo de junho é primavera, chove pouco e o clima é ameno.

Achei que fazendo um diário me lembraria dos detalhes que com o tempo se apagam… Sempre que bate a saudade releio.

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O diário, simples e leve como o caminho

Vai aqui um pequeno resumo do nosso trajeto:

Primeiro dia – 29 de maio

Chegamos em Lisboa onde permanecemos por dois dias para relembrarmos as maravilhas gastronômicas e culturais daquela cidade e do seu povo simpático. Portugal é sempre uma agradável estada!!!

Ai os pasteis de Belém...
Aiiii os salgados maravilhosos e os famosos pastéis de Belém…

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Segundo dia – 30 de maio

Mais passeios e muita caminhada para começar o aquecimento…

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vinte euros essa posta de bacalhau maravilhoso
Vinte euros essa posta de bacalhau maravilhoso

Terceiro dia – 31 de maio

“Pegamos o trem em Lisboa até Porto. Em Porto fizemos um rápido passeio e depois pegamos outro trem para Valença, que fica na divisa de Portugal e Espanha.

Chegando em Valença, procuramos saber por onde começaríamos nossa aventura… Perguntamos a um senhor muito engraçado que dizia o tempo todo que Portugal estava em crise, que a cidade estava vazia, a igreja desativada, o guarda principal aposentado, que nada mais funcionava, que a cidade estava um caos. Nossa… Já nos deparamos com um pessimismo que quase nos desanimou, mas o propósito era o contrário.

Lição do dia: Como é ruim ser negativo!!!

Conhecemos Valença que é uma pequena cidade cercada por uma Fortaleza e muito charmosa.

De lá, começamos nossa caminhada rumo a Tui, já na Espanha, Galicia, que fica a menos de três quilômetros de Valença. Chegamos e nos acomodamos num hotelzinho chamado Colon e de lá fomos conhecer a cidade, comemos tapas e fomos dormir cedo para partir no dia seguinte rumo a Porrino.”

Quarto dia – 01 de junho

“Acordamos às cinco, nos preparamos para sair às seis, seis e meia e já no café da manhã encontramos vários peregrinos. Muitos estavam de bicicleta e havia um brasileiro entre eles.

O clima nos animou muito e ouvimos histórias dos que já estavam na caminhada há mais tempo.

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Ainda quero fazer o caminho de novo, mas agora de bike

A cidade é linda com campos em volta e saímos da igreja principal, cujo primeiro carimbo registra o início da caminhada.

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Caminhamos cantando músicas italianas e rezando. O caminho até agora foi maravilhoso com muita natureza, riachos e flores.

Para caminhar junto tem que ter afinidade, respeitar os limites do outro, senão não dá para seguir junto.

O bom humor é fundamental!!!

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Lindas construções e igrejas
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Monumento ao peregrino

Chegamos em Porrino e fomos até o supermercado. Compramos pães, azeite, presunto, queijos e salada pronta. De sobremesa, chocolates. Nosso banquete foi no quarto.

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IMG_1248Hoje caminhamos mais de 20 quilômetros e estamos exaustos.

Agora, dormir…”

Quinto dia – 02 de junho

“Hoje caminhamos por estradas com altos e baixos, muitas pedras, pouca sombra e encontramos até uma cobra.

O caminho é feito de instabilidades, mas sempre aparecem pessoas para ajudar e desejar bon camino.

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Mais a frente encontramos águas claras de um riacho lindo e uma festa de Santa Ana no povoado de Mós. Havia uma primeira comunhão numa igrejinha e entramos de penetras.

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Santa Ana!

Ao final de uma caminhada mais árdua, chegamos em Redondela e ficamos na praia de Cesantes, onde havia mulheres de topless.

A praia é linda e escureceu mais de dez e meia da noite!!!”IMG_2677

Já passava das dez da noite e o céu estava assim...
Já passava das dez da noite e o céu estava assim…

Sexto dia – 03 de junho

“Hoje senti muitas dores nos joelhos. Somente consegui caminhar porque tomei profenid, coloquei joelheira. Pegamos chuva no caminho.

É a hora do maior silêncio e também do maior barulho.

A natureza é uma força tão poderosa que deve ser respeitada e quando vem a chuva não há o que fazer.

com capa de chuva

Chegamos em Pontevedra por volta das duas horas da tarde, uma cidade medieval muito linda.

Fomos até a igreja de Santiago e pela primeira vez, fiz pedidos por mim. Sempre peço pelos filhos e família.

Pedi para ser mais simples e prática.

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A linda Pontevedra

Com o tempo percebi que devemos carregar poucas e boas coisas. Levar o essencial… Menos é mais, mas deve-se levar o melhor que puder.

Ficamos num antigo convento.

Comemos empanada de legumes e “comida mineira” com linguiça e estava tudo maravilhoso!”

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Pontevedra, a mais linda

Sétimo dia – 04 de junho

“Saímos de Pontevedra para Caldas de Reis. Essa é a cidade mais simples e sem muitos atrativos.

O caminho hoje foi mais silencioso…

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Andamos por toda a cidade que é de águas termais. Aqui aconteceu algo estranho, um senhor nos parou na ponte e disse que o Nica (obs.: apelido do marido) tinha que parar de fumar.

Ele falava muito mal e explicou que estava com uma doença grave por causa do cigarro.

Daqui vamos à Padron.

Encontramos uma igreja cujo carimbo ficava no altar sem ninguém…

Geralmente alguém carimba por nós, mas aquele carimbo foi solitário.

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Calda de Reis

Oitavo dia – 05 de junho

“Padron. O caminho foi pesado pois saímos muito tarde. O sol estava forte, muito quente e passamos mal.

Caminhamos por estradas sem sombra por muito tempo. Passamos por povoados e pedimos água numa casa pois nossa água acabou.

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Não importa o quanto de dinheiro você leva consigo, se a sua água acabar, terá mesmo é que contar com a generosidade das pessoas.

As pequenas coisas se tornam maravilhosas como um copo de água fresca, um pão com azeite ou um descanso na sombra!

Descobrimos que estradas e cidades nos tiram a energia. Apenas quando entramos em bosques e natureza nos sentimos refeitos. Isso é impressionante.

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A natureza é essencial para a boa caminhada e sem a sombra e o frescor das árvores, os riachos com água limpa e as flores do caminho, não dá para continuar a caminhada.

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Constatamos também que devemos começar bem cedo pois o sol forte pode nos impedir de continuar.

Tivemos vontade de parar mas resolvemos não “desviar o caminho” proposto e mesmo podendo mudar o itinerário, poderíamos nos arrepender mais para frente. Diminuímos o ritmo mas não paramos.

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Amanhã será nosso último dia e também o mais longo. As dores ja estão cada vez mais fortes e estou com bolhas nos pés. O compeed salva nessas horas.

Dormimos perto da estação num local ermo e me deu medo.

Se a fé para mim é a crença no melhor, acho que o medo é a crença no pior.  Em vários momentos senti medo mas a fé o superava.”

Nono dia – 06 de junho

“Hoje saímos bem cedo. Acordamos às cinco e meia e saimos por volta de seis e meia.

No caminho encontramos nossas compaheiras portuguesas e outros peregrinos que víamos sempre.

Várias vezes encontramos pessoas de vários países e sentamos para comermos juntos e dividirmos experiências.

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Hoje foi o melhor e o pior dia! O mais longo mas com o caminho sempre por bosques e sem sol.

Quase lá
Quase lá

Chegamos pelas três horas em Santiago na Catedral, exautos. Muito linda e emocionante!

A chegada traz a sensação do dever cumprido e de superação. Depois entramos na fila para comprovar a caminhada e receber a Compostelana. É INESQUECÍVEL!

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Jantamos no paradouro de Santiago e para coroar, uma comida excelente!

 

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Santiago

A viagem valeu muito a pena apesar das dores, as bolhas nos pés e dificuldades. Ficávamos por horas sem conversar somente meditando ou rezando. Espiritualmente foi muito produtivo.

Não importa o quanto tempo você leva para chegar, o que importa é a caminhada com constância e nunca desistir!!!

Gostamos tanto de Santiago que resolvemos ficar por mais três dias!

Em breve os outros posts serão publicados!

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20 thoughts on “Diário do Caminho de Santiago de Compostela”

  1. Aninha amei seu relato, você escreve de maneira tão gostosa. Gostei muito de sua colocação que para caminhar junto têm que se ter afinidades e respeitar o limite do outro, isso vale para qualquer convívio e relação. Parabéns amiga pela caminhada e pelo seu depoimento!

  2. Aninha, adorei o post, seu diário, que nos conta ao coração. E Viva o Caminho, os Caminhos…!!! Beijos, querida

    1. É uma boa ideia fazer diários em viagens, nao é? Quantas coisas e lugares esquecemos depois de um tempo… obrigada! bj

  3. Tia,
    não sabia que você tinha feito um diário da viagem, ficou muito legal!
    Realmente foi uma superação enorme essa viagem..
    Superar as dores e os medos é o melhor crescimento emocional e espiritual..
    Amei!

  4. A disposição e a disciplina para esse relato são preciosas. Experiência única!!!
    Diário para ler e reler, prá ler e reler, prá ler e reler…
    Mtos tks, querida.
    Bjkas,

  5. Não é fácil né Aninha?
    Mas é tãoooooooo bom !!!!!!
    Reler o diário, rever as fotos e lembrar daqueles dias é também uma experiência especial!
    Só que sem bolhas e dores hahahahahahaha !!!!!
    bjsss

  6. Ana!!!
    Que bom ver que agora todo mundo pode conhecer sua visão de mundo que eu sempre admirei. Você tem delicadeza, sensibilidade e bom gosto pra compartilhar, e nós queremos aprender com você! Parabéns pelo projeto! Muito sucesso!!

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